Falar sobre maternidade é falar sobre desejo, sonho, projeto de vida. Para muitas mulheres, esse desejo vem carregado de significados: a continuidade da família, o encontro com uma parte de si mesmas, a concretização de algo que, em algum momento da vida, parecia natural.
Mas, e quando esse desejo encontra um obstáculo?
E quando, no lugar da alegria esperada, surge o silêncio da infertilidade?
Esse tema foi estudado por Leite e Frota (2014), em um artigo que mergulha na experiência da infertilidade a partir da perspectiva fenomenológica — ou seja, olhando para como a mulher vive, sente e atribui sentido a essa vivência.
E hoje eu quero compartilhar um pouco dessas reflexões, trazendo para perto de você a importância de cuidar não só do corpo, mas também da saúde emocional nesse processo.
A experiência emocional da infertilidade
A infertilidade vai muito além de um diagnóstico médico. Ela mexe diretamente com a identidade feminina e com a forma como a mulher se percebe no mundo. É comum surgirem sentimentos de:
- Fracasso: como se não conseguir engravidar fosse uma falha pessoal.
- Culpa: pelo corpo não corresponder ao desejo.
- Solidão: porque nem sempre há espaço para falar sobre essa dor.
O estudo mostra que esse momento marca um divisor de águas na vida da mulher: existe um “antes” e um “depois” da infertilidade.
Vivemos em uma sociedade que ainda associa fortemente o ser mulher ao ser mãe. Quando isso não acontece, muitas mulheres sentem o peso dos olhares, das perguntas invasivas, das comparações.
E esse peso externo se mistura ao peso interno, criando uma carga emocional difícil de carregar sozinha.
Outro ponto que a pesquisa destaca é a relação com o corpo. O corpo, que antes era visto como natural e aliado, passa a ser vivido como um obstáculo, um “inimigo”.
Consultas, exames, tentativas frustradas… tudo isso pode gerar um afastamento da própria imagem corporal e aumentar a sensação de impotência.
É aqui que entra a psicologia como parte fundamental desse processo. A infertilidade não pode ser vivida apenas como uma questão médica. Ela precisa ser olhada em sua dimensão emocional, relacional e existencial.
O acompanhamento psicológico pode ajudar a:
✨ Dar voz à dor: criar um espaço seguro onde sentimentos podem ser acolhidos sem julgamento.
✨ Resgatar a identidade: lembrar que ser mulher não se resume à maternidade.
✨ Apoiar o casal: já que a infertilidade também mexe com a relação a dois.
✨ Ressignificar o desejo: compreender o que significa ser mãe na sua história de vida e que outros caminhos podem ser possíveis.
O desejo de ser mãe é legítimo e merece ser respeitado. Mas quando esse caminho é atravessado pela infertilidade, é essencial lembrar que você não está sozinha e que sua identidade vai muito além desse diagnóstico.
Cuidar da saúde mental durante esse processo é tão importante quanto cuidar do corpo. A psicoterapia oferece um espaço de acolhimento, de reconstrução e de reencontro consigo mesma.
Porque, antes de qualquer rótulo, você é uma mulher inteira — e sua história não se resume a uma barreira.
Se você está vivendo a experiência da infertilidade, talvez já tenha sentido que as palavras não dão conta de explicar a intensidade desse momento. E está tudo bem. A psicoterapia pode ser o espaço onde essa dor encontra voz, onde o silêncio pode ser ouvido e transformado em um caminho de cuidado e autocompreensão.
Você não precisa atravessar esse processo sozinha. Permita-se buscar apoio psicológico: cuidar de si é também um ato de coragem e amor.
Referência bibliográfica:
LEITE, Renata Ramalho Queiroz; FROTA, Ana Maria Monte Coelho. O desejo de ser mãe e a barreira da infertilidade: uma compreensão fenomenológica. Revista da Abordagem Gestáltica – Phenomenological Studies, Goiânia, v. 20, n. 2, p. 151-160, jul./dez. 2014.



